– Mas que porra é essa, Joselito? – falou o editor entre contrariado e indignado, jogando os papéis na mesa. Peguei as folhas e me certifiquei: – É a matéria que você pediu, cazzo – respondi. – Não, bicho! Eu queria uma investigação sobre o submundo da prostituição, entrevistas, vídeos clandestinos com rostos borrados, vozes distorcidas, informações confidenciais reveladas em primeira mão… – Sim, e aí está: fui a campo, entrevistei pessoas, tudo como combinado. – Gastou o dinheiro que era pra fazer uma série de reportagem pra redigir só esse texto? – Oxe, e tu pensa que essas coisas são baratas? Queria que eu fizesse uma reportagem dessa como? Olhando fotos no Coelhinhas do Brasil e lendo o GP Guia? Se queria algo mais superficial, devia ter sido mais específico, Sérgio. Você me disse que queria uma matéria sobre prostituição, e adentrei esse submundo – falei com firmeza, jogando as folhas de papel sobre a mesa. Saí da redação do Papo Cultura contrariado, porque Sergio disse que provavelmente não publicaria o texto, então se você agora o está lendo, é porque ele mudou de ideia. Eis a “matéria”. * * * Naquela segunda-feira, era a “Noite do Cupido” no Senzala Show House. Achei inusitado a referência ao mito romano, mas pouca coisa ali lembrava sua angelical imagem, excetuando algumas moças seminuas que aguardavam serem convocadas para se apresentarem no pole dance. Embora eu estivesse a trabalho, pretendia passar a impressão de ser um frequentador qualquer, o que não foi muito difícil, pois estranhamente muitas funcionárias do local me conhecem. Escolhi uma mesa próxima ao palco, estrategicamente posicionada para observá-las, e não tardou para que “Cybelli” (ela, na verdade, se chama Josefa, descobri quando fui fazer o Pix) me perguntasse se eu queria companhia. Aceitei a oferta, mas logo me arrependi quando ela pediu um drink ao garçom. Lamentei não ter ficado a tempo de assistir aos shows de strip-tease, pois compreender a dinâmica desse tipo de apresentação seria fundamental em nossa pesquisa, mas tive que abreviar minha permanência no local para que ela não pedisse outros drinks, comprometendo assim o nosso orçamento. Negociamos os valores de seus obséquios, e quando íamos saindo, avistamos Carol (o nome verdadeiro dela é Severina), que me reconheceu de outra oportunidade em que estive no local. – Tava sumido… – Falou ela. – E eu vou morar aqui, é? Ela sorriu e considerei...
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